Se há coisa que posso dizer com convicção, é que tenho a certeza de que se acenarem a um profissional com a palavra “estratégia”, o profissional corre atrás. Todos querem estudar, pensar, fazer e recomendar estratégia. É o Santo Graal de qualquer atividade já que, posto num papel, mais do que o resultado objetivo de uma atividade, se trata do início de um caminho a seguir. Trabalho com poucas praticidades, portanto. É por isso que, dada a abertura para trabalhar estratégia, todos querem saltar a bordo, a conjuntura mental não poderia ser a melhor.
 

Falo do grupo e reconheço-me imediatamente dele. Ninguém sabe muito bem o quanto me desconcerta poder fazer um trabalho puramente estratégico, bem como poucos percebem o quanto me chateia quando eles me passam ao lado. A possibilidade de desenhar de raiz algo, de pôr a cabeça a funcionar para um problema que ainda foi pouco pensado e de com ela construir um mundo que ainda não existe. A certeza de que vamos fazer uma coisa diferente e diferenciadora, que vai resolver o problema do cliente — qualquer que seja o problema do cliente — e ao mesmo tempo deixar claro que o nosso trabalho é a coisa mais espetacular do mundo; que pateta era, quando queria ser astronauta, pois não sabia que existia a estratégia. Entretanto, o mundos lá fora vai acontecendo, a terra dá duas voltas. Nós, emergidos noutros projetos mas com o de estratégia na cabeça, estamos na crista da onda com a antecipação do que vem por criar. Agarramos nos papeis à nossa volta, escrevemos tudo o que nos vem à cabeça, estudamos setores, produtos, organização, tendências e concorrência. Redesenhamos os objetivos do cliente para aquilo em que acreditamos. Cruzamos tudo em guardanapos ou numa página solta do Evernote. Vai funcionar. Nunca ninguém fez isto. E assim, normalmente, a estratégia fica-se por aqui. No "que grandes que somos e que grandes que eles vão ser". Para mim, este é o momento Bom. 


No meu caso, dura dois dias. Ou o tempo que passa a febre e chega o trabalho. Até aqui estivemos a pensar no projeto antes de o ter de fazer de facto. Mas agora é quarta-feira, temos finalmente de agarrar o touro pelos cornos e levá-lo onde quer que se levem os touros. Neste caso, pegar num bezerro e torná-lo um animal à séria. Analogias desajustadas à parte, o momento em que somos confrontados com o trabalho é mais ou menos o momento em que me encontro enquanto escrevo este texto. É o período entre o parar o que estávamos a fazer e aquele em que de facto começamos a fazê-lo. É o momento (longo) em que ajudamos toda gente, tomamos cafés em catadupa, olhamos pela janela e tentamos chegar a qualquer ponto. Ainda não decidimos bem por onde vamos começar, sabemos para onde a nossa intuição nos diz para caminhar mas falta-nos descobrir o caminho a trilhar. Dói porque o tempo passa e estamos bloqueados, sofre-se porque as ideias que tínhamos de mudar o mundo tornam-se em constatações que o mundo já mudou sem um toque que seja de um dedo nosso. Na minha experiência, é o momento em que normalmente sinto que o que estou a fazer é mais do mesmo, e que o cliente não precisava de estar a despender honorários para isto que estou a fazer. Estamos no segundo momento, inverso ao primeiro, de herói a palerma em dois dias. Na minha construção estratégica, este é o momento Mau.


Passa o Bom, passa o Mau, vem e fica a Estratégia. Hoje foi por volta das 17h41. A chegada de uma conclusão satisfatória nunca segue o mesmo percurso. Constrói-se na maioria dos casos por uma conversa, numa transposição aleatória da matriz para uma versão que não tínhamos visto antes. Num instante, as peças todas que tenho em cima da mesa encaixam. De uma forma geral o processo que nos traz aqui é aquele acima retratado: sonho, pesquisa desmedida, invenção alucinada e raiva aos ombros de alguém que me ature por não conseguir fazer o que queria. Depois, num clique, um resultado que satisfaz. Os objetivos estão lá (anteriormente reformulados), o research é sólido, a lógica racional no cruzamento do negócio do cliente e as plataformas existentes permanece como o factor diferencial do que se faz. Mas por cima disto, é o clique que traz o que se fez para um nível acima do que se pretendia, do que se esperava, e mesmo do que se tinha sonhado. Este, é o momento em que de facto se faz Estratégia.


Durante muito tempo achava a Estratégia necessária, era um martelo parado lá em casa que se utilizava sempre que chegava um quadro novo para embelezar a sala. Depois achei-a sensual. Uma mulher (ou um homem para aqueles que nos preferem) que nos pára de rompante na rua pela surpresa, o encanto e a força natural de uma sedução arbitrária. Hoje, vejo-a como o elemento de predição e de sanidade mais necessário que usamos. No nosso caso, as que melhor funcionam são feitas na maior das parcerias com cada cliente, numa divisão completa do processo e uma abertura enorme para nos espalharmos ao comprido; nós e eles. No final, o resultado é sempre igual. Uma visão assinada por todos de um caminho que nos orienta e nos desafia a cada dia, certos de estarmos a fazer o melhor trabalho do mundo. Seja lá ele qual for. 

Pedro Pinto, Managing Director

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