Mais um ano e está já a chegar mais uma altura de prémios nacionais e internacionais de publicidade. Os internacionais, continuam no que diz respeito a agências nacionais a ser apenas um palco para algumas agências de publicidade dita tradicional, as agências portuguesas de digital continuam a ignorar a maioria dos grandes prémios, seja porque é um palco muito difícil de conquistar seja por sentirem que os trabalhos ainda não estão ao mesmo nível qualitativo do que se faz além fronteiras. É deste ponto que quero falar um pouco.

Os prémios mais conhecidos em Portugal de publicidade são os do Clube Criativos de Portugal, são os mais concorridos e também os que trazem mais prestígio às agências.
No ano passado tive o prazer de fazer parte do júri digital dos prémios do CCP, foi a minha primeira vez e diga-se que foi realmente uma experiência completamente nova. Reunidos que estavam os finalistas, depois de uma escolha individual por parte dos diferentes membros do júri, juntámo-nos para fazer a votação final. De entre os membros, eu era o que estava menos comprometido, não trabalhava para nenhuma agência nacional nem tinha trabalhos a concurso.
Com a exigência que criei ao longo da minha carreira e pelo que vinha a experimentar em outro mercado, achei que existiam, na melhor das hipóteses 3, trabalhos que realmente estavam com uma qualidade acima da média e eram merecedores de ganhar ouro (prémio mais alto no CCP). Os restantes, eram normais, eu não acho o “normal” bom. No entanto e apesar de até existirem algumas opiniões concordantes, acabámos por dar mais prémios, isto porque, "é preciso dar mais prémios senão para o ano ninguém concorre". Isto foi provavelmente o pior que poderia ter ouvido de pessoas que, como eu, trabalham em Portugal e representam a nossa criatividade.

Mas será que as agências portuguesas precisam disso?
Na minha opinião, Não.
Tendo em conta a dimensão do nosso mercado, temos provavelmente em comparação com outros mercados maiores e com maiores números de faturação, o maior número de bons criativos per capita. Veja-se na quantidade de portugueses que foram trabalhar em publicidade para mercados como o inglês, americano, alemão entre outros.
As agências portuguesas e os seus criativos em nada ficam atrás de qualquer outra internacional, temos tanta ou mais criatividade, somos dedicados, mas faltam em alguns casos uma parte fundamental: a exigência do trabalho final.
Falando do que mais conheço, que é o meio digital. As poucas agências que existem por cá, pelo menos aquelas que têm vindo ao longo dos anos a mostrar trabalho de qualidade, têm na sua maioria meios humanos e técnicos para criar trabalho que rivaliza com qualquer agência internacional, mas têm vindo a colocar a exigência numa fasquia muito baixa, existe sempre o cliente, que não paga o suficiente, ou os timings que são muito curtos, mas acho sinceramente que o mal maior está na agência, que pode e deve exigir mais e melhor do que coloca ao dispor dos clientes das marcas. 
Parte também das marcas exigirem que as agências dêem o seu melhor e que a qualidade do que é colocado online seja sempre melhor.
Uma grande referência na minha carreira e com a qual já tive o prazer de trabalhar uma vez disse-me (entre outras pessoas), que a partir do momento em que baixamos um bocadinho a qualidade e exigência e o cliente aprova, então essa qualidade vai começar a baixar aos poucos, porque se “passou” uma vez, então vai passar mais vezes.

Para nós que somos agência, devemos exigir de nós mesmos a maior das qualidades naquilo que apresentamos, para si que é cliente essa exigência deve ser também ela muito alta. Assim, ganham as marcas, ganham as agências, mas acima de tudo ganham os clientes.

Bons prémios a todos.

 

João Planche, Art Director

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