Do jornalismo à agência digital — ou um regresso à escola


Foram anos e anos de jornalismo. De textos. De artigos. Longos e muito longos. De leads e pirâmides invertidas. De revisão de textos. Criação de legendas e fechos de edição. Até que mudei de área profissional. E, com essa mudança, veio um novo dicionário a que fui obrigado — de forma feliz — a entender, primeiro, para depois o aplicar — neste momento com alguma propriedade.

Confusos? Viajemos até ao início da minha aventura na Wingman. Chego a uma sala repleta de gente. Cheia de jovens. Gente boa, criativa, organizada e trabalhadora. Bons portáteis e excelentes computadores, uma sala de reuniões impecável e aquele rebuliço de agência que sempre ouvi falar. Até aqui, tudo bem. 

Os primeiros momentos de pânico — de curta duração, é certo — começam com as primeiras tarefas: “Ângelo, preciso de um copy para aquele cliente!”. E eu penso: “Copy? Não é texto?”. Ok, adiante, esta é fácil.

“Ângelo, é importante que o teu copy crie algum engagement com os nossos clientes nas redes sociais!” “Epá, essa agora…”, segredo para os meus botões, mesmo percebendo claramente onde se quer chegar com o estrangeirismo. 

Ainda a recuperar do murro no estômago, oiço três colegas ao lado: “Amanhã temos kick-off com a empresa X”. Fecho os olhos, fingindo ser uma alergia, ao mesmo tempo que recordo que “Kick-off”, para mim, esteve sempre associado ao início de um jogo de futebol. “Agora não”, disse Deus, enquanto se ria da minha cara.

Dois ou três dias depois, já confiante e ciente das palavras que tinha assimilado, sofro um novo revés: “Ângelo, quando tiveres dúvidas com a plataforma, vai ter com o developer”. “Developer, pessoal? Eu pensava que era programador…ou engenheiro informático, vá!”. Siga! Quando surgiu um problema com a tal plataforma, lá fui eu, tranquilo, falar com o developer.

Dúvidas dissipadas, enquanto feliz, regresso ao meu posto de trabalho, oiço a conversa de um outro grupo de pessoas: “Vamos ter um pitch com o cliente Z. Já tenho a apresentação preparada”. A minha expressão de felicidade deu lugar a uma de desilusão. Nem Muhammad Ali aguentaria tanto golpe.

Findo o dia, dou um salto à casa da minha mãe, nos subúrbios. A pergunta sobre o novo trabalho sai rápida: 

- “Filho, como está a correr?”
- “Bem, mãe. Só que tenho de reaprender a falar…”.

Ângelo Delgado, Copywriter

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