São as pessoas. As pessoas não param de evoluir.

Há dias, numa conversa de fim de tarde, discutíamos a dificuldade que todos temos em memorizar. São cada vez mais as horas em que me comparo a alguém com um quarto de século a mais em cima. Não pelos cabelos brancos — que por cá ainda não habitam — mas sim pela dificuldade bruta que vou tendo em lembrar. O culpado, decidimos nós, para este brusco envelhecer? Do seu lugar comum, por favor, que se levante a Tecnologia.

Porque na realidade, quem é que se precisa de lembrar? Não sei os números de ninguém, não sei onde almocei na passada sexta-feira, não faço ideia do que fiz há sete fins de semana atrás e nunca me perguntei quantos anos tem o Aqueduto das Águas Livres. Mas quem é que sabe tudo isto? O meu telemóvel. Esse símbolo ignóbil da Tecnologia dos novos anos 10.

Mas porra — não sei se posso introduzir calão na nossa respeitada Newsletter, mas num esforço desumano para trazer de volta as raízes nortenhas que seis anos de capital me foram fazendo esquecer, numa espécie de fisioterapia gramatical ligeira, vou introduzi-lo de qualquer forma — será mesmo a tecnologia, a culpada de tudo isto? Afinal de contas, foi a tecnologia que se trouxe assim de uma só vez, sem pré-aviso, para a vida das pessoas? 

Não me parece. Não serão antes as pessoas? Claro que são as pessoas. Andamos agarrado aos ecrãs porque nos embrutecemos se o pararmos de fazer. Andamos reféns dos 700€ que alguns pagam pelo pedaço de evolução com que andam no bolso, porque o nosso cérebro gostou da primeira vez que descansou e disse “vê no Google”. Não nos lembramos de nada, porque não nos queremos lembrar. Ou então não.

Quer dizer, são as pessoas. São na mesma as pessoas. Mas não porque somos parvos. São as pessoas porque é apenas com elas que o material, que custa 30€ a fazer, é vendido pelos tais 700. É com elas que a tecnologia aprende, se educa e se refina, dando respostas cada vez melhores. É para elas que tudo isto é feito, é por causa delas, de nós, que hoje não nos lembramos. E não nos importamos. Gostamos. São as pessoas porque tudo hoje é feito para nós.

O grande objetivo não é inovar por inovar, avançar tecnologicamente por deleite do engenheiro ou construir por orgulho do mais frenético arquiteto. Inovamos para as pessoas, por causa das pessoas. Nós somos o grande objetivo, não a tecnologia.

E, por isso, da próxima vez que estejam num café e peçam ao namorado para largar o telemóvel, que estejam a jantar e se irritem com a tipa que matou a conversa porque foi ver ao Google, que um colega vos diga que o responsive design é que é ou que um amigo vos mostre que os carros sem condutor é que vão ser, não culpem a tecnologia. Culpem as pessoas. Não trabalhem para a tecnologia, trabalhem para as pessoas. Não se orgulhem da tecnologia, orgulhem-se das pessoas. Ou melhor, agradeçam às pessoas. São elas que vos fazem evoluir, todos os dias.

Pedro Pinto, Managing Director

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