Acho que não minto se disser que começou em Fevereiro. Cheguei ao escritório, carreguei um copo com água para cima da mesa, abri um bloco de notas e escrevi uma lista com as catorze coisas que tinham corrido mal em dois meses. Julgo que continuo sem mentir se afirmar que não estava a ser maricas enquanto me via derrotado para a vida com aquela lista. 

Pouco depois, vieram os sintomas físicos da derrota matinal. Durante os meses seguintes a barriga ficava fria em situações pouco normais, as pernas dormentes, a voz não saía, a vontade para acordar era pequena, as dores de cabeça eram a minha principal companhia. Se perguntarem à Sílvia, por cima disto tudo, eu era o gajo mais chato do mundo. Sabem como é, perder é fodido, e eu estava a perder tudo.

Não renovámos algumas contas mais pequenas, decisões em clientes importantes eram postas em banho-maria, não estava a conseguir ter tempo para desenvolver contas adormecidas e, para terminar em beleza, a conta que mais me fez suar e evoluir nos últimos anos — e por conseguinte aquela marca à qual tenho alguma dificuldade em referir como “eles” pela facilidade apressada com que uso “nós” — dizia que ia abrir concurso para agência digital. Querem-nos longe, foi o que pensei.

Os dias passaram até Abril e do meu lado as coisas não melhoravam. Tinha perdido parte significativa da vontade de lutar. Achava que já tinha dado tudo, estava cansado e derrotado. Felizmente, a Ana, o João, as Sofias, o Paulo, o Miguel ou o Bruno acharam que não.

Saltem para Junho e imaginem uma sala cheia de responsáveis pelo negócio da companhia aérea portuguesa de bandeira. As tais figuras que eu achava quererem-me a mim e à minha equipa longe dali. Em hora e meia, acho que os convencemos. Sem gestos dramáticos mas com a convicção e o entusiasmo natural de quem acredita no que está a apresentar a um cliente, mostramos-lhes um futuro onde a sua marca é trabalhada de forma mais sólida, em qualquer canal, e onde a cada cliente é apresentada uma experiência verdadeiramente útil e consistente, de forma surpreendente. No final, aplausos. Acho que ficamos por cá mais algum tempo.

Há uns dias, numa entrevista, dizia que o nosso trabalho vive de egos grandes. Somos vendedores de sonhos, de visões grandiosas, mas que no final do dia têm de ser possíveis de se tornarem reais. Para as transparecer a quem está do lado de lá, temos de nos encher de nós, mais seguros do que nunca de que aquilo que apresentamos representa o melhor de nós, mas também o melhor para eles,  aqueles que nos dão a oportunidade de sonhar, discutir e produzir numa parceria que ultrapassa o cliché em que a palavra caiu. Precisamos de nos sentir gigantes. No entanto, nos meses anteriores, sentia-me o homem mais pequeno residente em Lisboa.

Os ingleses têm esta expressão: “to the victor go the spoils”. Um ditado americano que quer mostrar que numa vitória se ganha muito mais do que o objeto da disputa. Nunca entendi se nos contextos em que é utilizada é referida em tom positivo ou negativo. Hoje, no entanto, para mim, ganha um significado concreto.

Mais do que o renovar de uma relação de 6 anos com uma marca que tenho como minha, os últimos meses foram uma compreensão de que mesmo como líder, responsável por mais de 30 pessoas numa empresa de 80, também tenho direito a não estar no meu melhor. E foram estas pessoas que me mostraram que independentemente de cada erro que cometemos, de todas as batalhas que perdemos, ou dos muitos desvios de percurso que somos obrigados a tomar — na prática, independentemente de toda a merda que fazemos — vai sempre existir alguém que se vai rodear de pessoas inteligentes, mete-los a todos numa sala, e só sair de lá quando esteja terminada a árdua tarefa de nos relembrar porque somos dos melhores a trabalhar experiência, design e estratégia digital em Portugal.

Pedro Pinto, Managing Director

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