… ficarem sem emprego?”

Perguntava Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit, na edição lisboeta. O facto de a pergunta ter sido feita na mesma semana em que Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos é inesperadamente oportuna. Cosgrave fez a pergunta essencial. O que irá acontecer? Não sei, mas tenho um pressentimento sobre o futuro: irão dar à tona mais Trumps e outros anticorpos violentos face à bolha cosmopolita, liberal e digitalizada que está a forçar a mudança nas nossas sociedades. 

Calma. Sei que muitos outros fatores se cruzam com a clivagem entre o mundo digitalizado e os deserdados da desindustrialização. Racismo, xenofobia, misoginia, terrorismo, obscurantismo evangélico, cultura de reality-show, etc. No meio de tudo isto, até Zuckerberg se viu obrigado a defender-se da acusação de que o algoritmo do Facebook — “fonte noticiosa” para 62% dos americanos — propaga informação falsa e reforça ideias pré-concebidas. Sobre o efeito insulador das redes sociais enquanto filtro da mensagem jornalística, recomendo esta e esta leituras.

As explicações para o fenómeno Trump têm sido exaustivamente debatidas e é possível que todas elas tenham a sua validade. E num mundo cada vez mais complexo e interdependente, o refúgio em afirmações identitárias puras e duras, revanchistas e indiferentes a factos e racionalidade, já está a explodir-nos na cara. 

Por agora, regressemos à pergunta de Cosgrave e foquemo-nos apenas na visão da sociedade num futuro não tão distante. Perplexos, perguntamo-nos como se estivéssemos nalguma realidade paralela: como é possível assistirmos, em simultâneo, a um evento de inovação em esteróides como o Web Summit e ao triunfo de um ideário tão anacrónico como o de Trump? 

A verdade é que nas próximas décadas, enquanto o empreendedorismo de cunho tecnológico continuar a surpreender-nos, prevê-se também que continue o desenraizamento de milhões de pessoas do tecido laboral. Impedidos de participar na nova economia digital, conformados com o desemprego crónico ou empregos não qualificados que não permitem ambicionar mais que pagar renda de casa, água e eletricidade. A nova economia digital é também uma fonte de crescente desigualdade e por isso a questão que Cosgrave levanta é mais urgente que nunca.

Pensemos, por exemplo, na próxima galinha dos ovos de ouro para um punhado de companhias e tech billionaires: os carros em piloto automático. Não se trata apenas de uma revolução no transporte público e no transporte pessoal. Poderá toda uma indústria baseada nos camionistas norte-americanos, que se estima atualmente em cerca de 8 milhões de empregos, sobreviver aos camiões automáticos que já estão a ser testados pela Daimler? Já para não falar no forte investimento em inteligência artificial que prevê consequências igualmente drásticas.

O triunfo de Trump faz-nos temer que estejam em perigo os fundamentos da sociedade aberta, que damos por adquirida. Os desafios que temos pela frente são múltiplos e gigantescos. Com o mesmo entusiasmo com que acolhemos as novas aplicações e negócios que revolucionam a vida dos consumidores, talvez esteja na hora de dar a devida atenção ao papel disruptivo (para o bem e para o mal) que a tecnologia pode ter na vida dos cidadãos e das comunidades.

Joana Ribeiro, Copywriter

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