As eleições nos EUA duram mais de um ano. Desde que começam a ser anunciados os candidatos de cada partido até ao dia das eleições, são meses e meses de notícias, caucus e primárias, debates, escândalos, alguma falta de noção e muitas declarações bombásticas.

Como desde sempre me interesso por este fenómeno, depois de muitos vídeos no YouTube a conhecer as personagens, decidi experimentar os sites dos candidatos. Registei coisas às quais não estava habituada.

O que se segue é um resumo da minha imersão neste universo frenético. Em que um site não é um mero veículo de informação, mas um centro de arregimentação. Em que o que conta não é tanto esclarecer, antes pôr os utilizadores a mexerem-se. Escolhi os candidatos com mais hipóteses de virem a ganhar a nomeação: Marco Rubio, Ted Cruz e Donald Trump do Partido Republicano,  Hillary Clinton e Bernie Sanders do Partido Democrata. Foco-me neste artigo nas 3 vertentes que mais chamaram a minha atenção ao ter visitado os respetivos websites: intro, homepage e emails

Barrados à entrada

Entrar no website de um candidato americano é uma mini-aventura. Todos eles (à exceção de Donald Trump) apresentam uma splash page ou modal atualizadas ao dia, e cujo objetivo é invariavelmente o mesmo: obter donativos. Os botões de ‘skip’ são discretos, por vezes difíceis de encontrar. 

Antes de entrarmos no website de Marco Rubio, somos alertados para uma urgência: é preciso travar Donald Trump! E antes que possamos encontrar a opção de continuar para o website, que está no fundo da página e não cabe em resoluções de 1280x800, somos obrigados a ler um formulário para inserir email e código postal. É normal que nesta fase o utilizador se pergunte exatamente por que motivo está a dar informação pessoal. A resposta vem no passo seguinte: escolher um donativo cujas opções pré-definidas vão de 10$ a 250$. 

Também Hillary Clinton usa a lógica de apresentar statements para atrair apoiantes. A linguagem é séria e confronta-nos com problemas graves. Mas depois de inserir email e zip code, fui incentivada no passo seguinte (ufff….) a dar o número de telefone para receber “texts from Hillary”. Então depois, o formulário para doar. Duas horas mais tarde, contudo, depois de limpar os dados de navegação do browser, já tinham encurtado o processo: ajudem-me a derrotar Trump, please “chip in”.

O formulário com que Ted Cruz nos saúda tem a opção “make this a monthly contribution” já pré-ativada e poupa-nos a um passo seguinte, com os campos para cartões de crédito já expostos na mesma página. Tem também um link para formulário em PDF para os mais tradicionais, fazendo jus ao mote da campanha “Courageous Conservatives”. Mas na modal com o botão “donate” que me levou ali, existe também a opção de inscrição para votação no caucus do estado respetivo, o que não deixa de ser uma originalidade face à concorrência.

Antes de podermos visitar Bernie Sanders e Donald Trump, temos, ironicamente, uma página de ‘captcha’ para provarmos que não vamos fazer spam. Depois de confirmar que não sou um robô, vejo que a splash page de Sanders é um pouco mais simpática do que as restantes, com um rosto sorridente, um botão de skip bem visível e um copy mais friendly. Até porque Sanders prefere o termo “contribute” a “donate” ao longo de todo o site.

 

Donald Trump não barra ninguém à entrada. Mas falaremos dele mais adiante.

Onde pára a política?

Depois de conseguir finalmente entrar no website de Rubio, saltou de imediato um pedido para aceitar notificações no browser. Cometi o erro de permitir, para anular logo na hora seguinte quando começou a perseguição. No topo da homepage, temos em grande destaque os já clássicos campos para preencher email e código postal, em formato gigante, que vão dar a um formulário de donativos. Se acedermos a doar por esta via, já encontramos valores pré-definidos mais puxadotes face à splash page, como a módica quantia de 5.400$. De resto, Rubio esforça-se por ter muito conteúdo político na homepage, mas o painel de cards em formato caótico, sem ordem nem prioridade, é no mínimo desencorajante. 

Ao fazermos scroll na homepage de Bernie Sanders (onde há ordem e prioridade), notamos que todos os blocos se resumem a call-to-actions muito claros: get mobile alerts, shop, attend events, share with friends, connect with Bernie, join us. Mas no topo, à semelhança de Hillary, a “hero image” sem copy e o menu lateral deixam-nos com uma desoladora sensação de vazio. Curiosamente, Sanders tem um outro website chamado Feel The Bern, onde os “Issues” são o centro das atenções e onde é possível subscrever uma newsletter específica para divulgação de ideias. Mas a ligação entre feelthebern.org e berniesanders.com parece não existir. Se existe um botão que liga os dois websites, eu não o encontrei.

Mas é Hillary Clinton quem quer aperfeiçoar ao máximo a técnica de transformar o leitor em reator. No topo da homepage não existe uma única mensagem política, mas há 3 call to actions em grande destaque  (estamos a excluir o “volunteer”, o “shop” e o “follow” do menu) sobre um ambiente enérgico e cheio de estímulos. A presença constante da —> cria a sensação de mobilidade. Todo o look & feel passa por uma modernidade hiper-informal que não casa totalmente com a personagem. E no caso de Clinton, é notória a secundarização do “programa”, em comparação com o destaque dado a call-to-actions. A própria página de “Issues” não teve melhor sorte do que entradas de texto organizadas alfabeticamente (??). Tanto a homepage de Clinton como a de Sanders primam pela ausência de vídeos, ao contrário das dos candidatos republicanos. De uma forma geral, são decepcionantes a nível de conteúdo (ainda que Clinton tenha uma boa página 404).

Penso que a homepage mais bem conseguida é a de Ted Cruz, com um maior equilíbrio entre call to actions, multimédia, posições políticas, eventos locais, iniciativas (quem não gostaria de juntar-se a uma “national prayer team”?) e redes sociais. É também notório que os gestores do website site andem atentos, pois o nome dos botões do menu principal foram entretanto corrigidos. Ora “Issues” é muito mais inequívoco do que o vago “Proven Record”, certo? Infelizmente, quando voltei no dia seguinte, fiquei literalmente sequestrada nesta página. Conseguem encontrar a opção de ‘skip’? 

Donald Trump tem, inesperadamente, o website menos agressivo de todos. Intros: o que é isso? Reina a calma numa homepage onde os dois botões de ‘donate’ quase passam despercebidos, tendo em conta a concorrência. Mas o website de Trump parece o mais ultrapassado, contrário ao flat design adoptado pelos concorrentes, e com uma míriade de fontes a competirem umas com as outras — incluindo umas garrafais serifadas saídas do wild west, que desisto de ler à terceira letra. O investimento de Trump no website não parece ser uma prioridade. O que é natural, para um bilionário sem problemas para autofinanciar-se e que consegue publicidade q.b. com o número inesgotável de declarações bombásticas a rodar nas televisões e redes sociais. E, na verdade, também não sabemos muito bem quais são os planos de Trump para a internet.

Emails: all hell breaks loose

Lembram-se das splash pages que à entrada pediam para concordarmos com manifestos ou, genericamente, juntarmo-nos à causa? Pois bem. A partir desse momento, estamos no plano de email marketing (vamos chamar-lhe assim) dos candidatos. Esqueçam o corriqueiro “Subscreva a newsletter e receba as nossas novidades em primeira mão”; aqui entramos diretamente, sem aviso, para as fileiras de um exército. Exceção? Trump, com uma rudimentar mensagem de confirmação que quase me fez sentir em casa:

Depois de escolhermos dar o email na splash page ou em qualquer outro formulário, o email de boas-vindas é imediato. No caso de Clinton até são dois. E não parece haver deteção de emails já inseridos na base de dados: se fizermos um “join now” outra vez, Clinton continua a dar-nos alegremente as boas-vindas.

Durante a minha saga, recebi dos candidatos uma média de dois emails por dia. Em dias de eleições primárias, ou consoante o que dá à tona nas notícias, até podem ser 3 ou 4. Como não podia deixar de ser, os emails dos vários candidatos têm todos um denominador comum: call to action para donativo. Hillary Clinton trata-me por “Friend” e pede 1$; um dos emails indicava a média da minha “área de residência” estava nos 23$. Bernie Sanders prefere o “Sisters and Brothers” e pede 3$ (mas o link envia-nos para um formulário cujas opções começam nos 15$). Não é raro, porém, que o tema principal dos emails seja as “táticas sujas” dos adversários.

Ted Cruz é mais comedido e resume-se a um link discreto “make a donation today”. Rubio, em concordância com a errância habitual, dispara alto para valores que vão dos 7$ aos 50$. São também de Rubio as técnicas mais insólitas. Fiquei intrigada com o email de uma Valerie, que perguntava: “Did you get Marco’s email?”. Era um membro do staff, a certificar-se que eu tinha visto um email de Rubio a falar… da importância de contribuir para os gastos da campanha.

E, por fim, Donald Trump. Ficou-se por 1 email, a anunciar presença Ohio. Sem pedir um único dólar. Confesso que tive pena!

Em conclusão

Não deixa de ser interessante comparar esta realidade com os websites dos candidatos às últimas eleições presidenciais em Portugal.

Achamos exagerada e abusiva a obsessão americana com o dinheiro. Mas as campanhas custam muito e a verdade é que não deixamos de criticar quando candidatos como Paulo Morais (cujo website parece ter sido feito em 2004) ou Maria de Belém se vêem na condição de pedir dinheiro à posteriori para arcar com os gastos. 

Se fizermos uma rápida visita a estes e outros websites, como o de Marisa Matias, Edgar Silva, Henrique Neto ou até Vitorino Silva (o do Prof. Marcelo já não está disponível), percebemos que estes são meros veículos expositivos. A secção de notícias domina. Só Tino disponibiliza um NIB no fundo da página. Cadê o copy a mandar-me fazer alguma coisa? E que diabos: onde posso subscrever a newsletter?

Resumindo, os sites das campanhas americanas:

  • assumem que as pessoas já conhecem os candidatos (sobretudo Clinton)
  • são centros de financiamento das campanhas
  • têm como prioridade pôr os apoiantes a trabalharem para a campanha

E têm páginas 404 alucinantes, como a de Ted Cruz.

Joana Ribeiro, Copywriter

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