Sim, é embaraçoso. No que diz respeito à antecipação do sucesso de novas propostas tecnológicas, o meu faro tem sido tão certeiro como uma bússola de cartão. 

  • Vivi por dentro o advento da internet sem nunca entender o que trazia todos em meu redor tão entusiasmados; 
  • Interagi desde cedo nas redes sociais sem lhes antecipar a ubiquidade que rapidamente alcançaram;
  • Quando pequei num iPad pela primeira vez, logo o pus de lado e esqueci o assunto;

Não significa que não acerte aqui e ali:

  • Tive a oportunidade de trabalhar com um Mac no inicio dos anos 90 e soube logo que o caminho dos interfaces era por ali;
  • Fiz uma pesquisa no Google original e entendi imediatamente que algo grande estava a nascer;
  • Vi o anúncio do primeiro iPod e, mais tarde, do primeiro iPhone e percebi que o mundo tinha acabado de mudar.

E, ciente desta "bússola de cartão" com que me encontro equipado, tenho tido cautela no vaticinar do sucesso ou insucesso do Apple Watch. 

Para inicio de conversa, um disclaimer: deixei de usar relógio há mais de 10 anos e não, não sinto vontade de ter ou usar um. Mas o Apple Watch está ainda mais distante de um relógio do que o iPhone está de um telefone.

O que penso: o Apple Watch está numa faixa de oferta entre "as coisas que uso sobre o meu corpo para me identificar e sentir seguro" e "as coisas úteis e convenientes que expandem as minhas capacidades e me dão super-poderes". 

De momento, sinto-o como uma desilusão na dimensão identitária e ainda pouco preenchido na dimensão "capacitária". 

E sim, há um mundo de coisas a confluir para o mundo do smartwatch enquanto expansor de capacidades individuais. Só que, a tecnologia está também no limiar de uma dramática desmaterialização daquilo que nos permite aceder e interagir com o mundo da informação. E é esse o meu ponto, pelo menos onde me encontro.

Mais focado no mercado do momento, aconselho a leitura deste artigo de M. G. Siegler.

Paulo Ramos, Lead UX Designer

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