Nos últimos tempos tenho-me cruzado com notícias sobre telemóveis que me lembram a medida alucinante a que a minha vida está exposta à mudança. Ora são os telemóveis em formato concha que vão voltar, ora as listas dos mais ridículos da história. Existe agora também a moda dos “telemóveis estúpidos”, numa resistência à obsessão da atualização, às vaidades quotidianas nas redes sociais e ao suposto vício da informação que muitas vezes se resume a uma overdose de espuma dos dias.

Para mim a história do telemóvel começa em 2001, ano em que entrei para a faculdade e que, de certa forma, determina o início da minha ligação ao mundo. Desde essa altura tive 10 telemóveis, o que dá uma média de 1,5 ano da minha vida com cada um deles. E a todos consigo associar instintivamente momentos importantes, sms lendários, a lembrança alegre de certos ringtones, peripécias angustiantes por se me estar a acabar a bateria e por aí fora. 

Isto é o nosso tempo: dez anos são hoje uma eternidade, um período mais do que suficiente para fazer surgir o revivalismo. Os anos 80 estão a deixar de ser a bitola para a nostalgia e o início do século XXI já parece uma pitoresca peça de museu. 

Pensemos também que dez anos são suficientes para ver ascender e cair impérios como o da Nokia e o da Motorola. A Nokia é um caso verdadeiramente quase chocante: em 2007 era líder de mercado e dava emprego a 200 mil finlandeses. Hoje, depois de falida, é imagem de um país insuspeitamente obrigado à austeridade

Por vezes pergunto-me se temos mesmo capacidade para assimilar tanta reviravolta. É que a inovação tecnológica tem acompanhado 15 anos muito turbulentos a nível internacional, com guerras, colapsos económicos, avanços históricos e recuos bruscos em termos de direitos humanos. Não sei se a nossa exposição diária a um cenário tão vertiginoso não nos tornará obrigatoriamente mais indiferentes, menos sensíveis.

Mas tenho a certeza de que as nossas vidas serão hoje, mesmo que ilusoriamente, bastante mais preenchidas. Na Idade Média, uma pequena inovação na charrua talvez demorasse uns 100 anos a chegar. E é verdade, tenho umas saudades doidas daquela concha da Samsung que comprei em 2006, porque está associado a momentos inesquecíveis.

Joana Ribeiro, Copywriter

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