Estávamos em Abril de 2014. Uma rapariga argentina de 25 anos, que estava a viver em Los Angeles há pouco tempo, decidiu abrir uma conta no Instagram. Começou então a publicar fotos aparentemente normais, sobretudo selfies, onde ora surgia em poses sensuais junto ao varão, ora mostrava os perfumes preferidos. Às vezes também aparecia a pintar as unhas, ou então aparecia só de cuecas. Normalíssimo nos dias que correm. As legendas que acompanhavam estas fotografias também não eram nada más. "Find a rich man, marry his father." 

A conta pertence à artista Amalia Ulman. É uma conta verdadeira, com dados de utilizador a sério e fotos reais. Ulman transformou-se numa micro-celebridade em apenas 4 meses: em Agosto de 2014 já tinha 65 mil seguidores. Até aqui tudo bem. O que os seguidores da argentina não desconfiavam era de que a narrativa que começara a ser construída através destes posts era completamente forjada e constituía uma tentativa de performance intitulada Excellences & Perfections (curiosamente, a descrição que acompanhava um dos primeiros posts de Ulman e uma espécie de aviso à navegação).

  Post que inaugura a performance de Ulman no Instagram

Post que inaugura a performance de Ulman no Instagram

Podemos resumir em três fases - todas elas bem definidas pela artista argentina desde o início - essa narrativa que duraria cerca de cinco meses e que acabaria com outro post de Ulman a anunciar o fim: 1) a fase, já referida, da rapariga provinciana e sexy que acaba de chegar a L.A., 2) a fase sugar baby e 3) a fase do yoga, da alimentação saudável e das frases profundas. Pelo meio encontramos implantes mamários (falsos), o uso de drogas (falso) e muita choradeira (a fingir). 

O que Ulman pretendia com a sua conta de Instagram era expôr estereótipos femininos, que considera pouco naturais: "I wanted to prove that femininity is a construction, and not something biological or inherent to any woman. Women understood the performance much faster than men. They were like, ‘We get it – and it’s very funny. [...] The joke was admitting how much work goes into being a woman and how being a woman is not a natural thing. It’s something you learn."

  Post da artista durante a performance

Post da artista durante a performance

A artista admite que estudou os perfis de Instagram de outras micro-celebridades e hit girls para achar padrões e imitá-las durante estes meses. Também usou as mesmas hashtags que aquelas usavam. Curiosamente, muitos dos seus seguidores, sobretudo homens, não acreditaram no post em que Ulman anunciava o fim e em que dizia que todos aqueles posts anteriores eram parte de um projecto maior. 

Ulman confessou ainda que durante a performance (chamemos-lhe assim, à falta de melhor descrição), foi muito criticada por alguns amigos e galeristas com quem então trabalhava. Achavam que aquela postura a descredibilizava, como pessoa e como artista (como se para Ulman houvesse diferença). A verdade é que vários críticos consideraram a conta de Ulman uma obra-prima e em menos de dois anos após a sua criação estava a ser convidada para expôr os posts na Whitechapel Gallery e no Tate, em Londres.

  Post no período pós-performance com o pombo Bob, o seu animal de estimação.

Post no período pós-performance com o pombo Bob, o seu animal de estimação.

Já sabíamos que o Instagram é, por excelência, a rede preferida dos artistas visuais. Fotógrafos, pintores ou ilustradores usam-no para divulgar o seu trabalho. Mas criar uma obra (se não de arte, pelo menos de grande sentido de humor e inteligência) a partir da natureza intrínseca de uma rede social é, pelo menos para mim, uma novidade e foi o que despertou o meu interesse neste caso. Muitos dos outros trabalhos de Ulman, que vão do desenho ao vídeo, passando pela instalação, já exploram questões de género e identidade, que é o que mais interessa à argentina, com maior agudeza até, talvez. Veja-se o exemplo deste vídeo (pertence à exposição The Destruction Of Experience, 2014), que questiona a masculinidade de Justin Bieber, ou a arrojada fotografia da série Dignity. Genial é a inteligência metódica com que Ulman explorou o potencial narrativo do Instagram, indo assim ao âmago da experiência mais ampla que uma rede social pode constituir para muitas pessoas - não nos esqueçamos que aquilo que somos e mostramos nas redes sociais é sempre uma máscara, por mais autênticos que queiramos parecer -, homens ou mulheres.

Se gostaram desta bela partida, sigam aquiaqui e aqui o trabalho de Amalia Ulman.

Tiago Guerreiro, Copywriter

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