Para quem não conhece, ASMR significa Autonomous Sensory Meridian Response — o termo criado para descrever um fenómeno sensorial, chamemos-lhe assim, que algumas pessoas experienciam na presença de certos estímulos auditivos.

O ASMR consiste no desencadear de arrepios pelo corpo ao ouvir sons como sussurros, plástico a desembrulhar, sons “molhados” ou pancadinhas em variadíssimos materiais (metal, madeira, cartão, etc). Estes estímulos sonoros, conhecidos por triggers, provocam uma sensação de extremo relaxamento que pode ser acompanhada por arrepios no topo da cabeça, na nuca, nas costas e por vezes pelo corpo todo — os chamados tingles. Freaky stuff. Por outro lado, em pessoas que não sejam sensíveis a ASMR, não provocam coisíssima nenhuma (lamento), ou pode ainda dar-se o caso de terem misofonia e, se assim for, vão sentir-se muito incomodados por estes sons.

Estimular os sentidos

O que é facto é que quem “tem” ASMR, gosta. E gosta tanto, que se gerou uma comunidade significativa de pessoas no Youtube em torno deste fenómeno. Há atualmente centenas de youtubers que criam vídeos para satisfazer este público voraz, que devora sons estimulantes diariamente, seja para se concentrar enquanto trabalha, dormir uma sestazinha ao fim de semana, ou… algo mais.

No Youtube podemos encontrar vídeos de vários géneros, seja por temática ou por tipo de trigger. A este nível temos vídeos soft spoken (falados numa voz suave), whisper videos ou unintelligible whisper videos (sussurros, a falar normalmente ou de forma a não se compreender o que é dito), no talking videos (só sons, sem vozes), mouth sounds videos (sons “molhados” provocados com a boca ou língua — sim, é estranho) e roleplays. Além dos estímulos sonoros, há quem também seja sensível a estímulos visuais, como movimentos ondulantes de mãos ou coisas squichy a serem esmagadas. Também há muito disso no Youtube e até no Instagram.

Adultos a brincar

Os vídeos de ASMR, além de proporcionarem os estímulos propriamente ditos, servem também para entreter e maravilhar os públicos com os dotes artísticos dos seus criadores. É nos roleplays que eles mais brilham, investindo horas (e dinheiro em materiais, já para não falar no preço dos microfones) em produções que lhes conferem milhões de views e estatuto nesta comunidade.

Em termos de roleplays podemos encontrar coisas tão variadas como os vídeos de lojista, em que se simula a interação com a empregada de uma loja (queijos, videojogos, perfumes...); os roleplays médicos, em que podemos imaginar que estamos numa consulta com um dermatologista, otorrino, neurologista, etc; os roleplays temáticos (sobre filmes ou séries) e, entre muitos outros, os roleplays girlfriend/boyfriend. Estes últimos vieram “agitar” bastante a comunidade ASMR porque extravasam a barreira do relaxamento, passando à estimulação erótica pura e dura (jovens a comer bananas de maneira ruidosa e afins), tendo gerado o debate sobre o que é realmente o ASMR e quais são os seus limites. Isto dava para toda uma discussão filosófica, talvez num futuro artigo.

Do relaxamento ao surrealismo

Polémicas à parte, há muito público para o ASMR dito “decente”, que serve sem dúvida um propósito físico, mas que valoriza essencialmente a componente de meditação, relaxamento e pensamento positivo. O objetivo é criar cenários próximos e de intimidade para com o público, que produzem tingles e conferem uma sensação de segurança e proteção reminiscente do tempo em que éramos bebés, embalados ao colo da mãe.

O humor está muito presente na comunidade — ao fim ao cabo, temos adultos vestidos de fada a sussurar-nos ao ouvido — e a criatividade não tem limites. Encontram-se coisas tão surreais como o canal Ephemeral Rift (quem diria que Satanás podia ser tão querido?) a Ardra, com as suas divagações estéticas hipnotizantes, ou a ASMRMagic, que desafia os limites ao provar-nos que uma Piñata também pode ser relaxante.

Num mundo de Trumps e Kim Jong-uns, de Troikas e aquecimento global, de sogras e patrões chatos, todos nós precisamos de um “miminho” de vez em quando. Por isso, ponham os headphones e deixem-se levar por estes artistas/cuidadores/enfermeiros-da-alma. Eles têm muita coisa para vos contar... ao ouvido.

Susana Fernandes, Senior Copywriter

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