Gostava de contar-vos uma história que um antigo professor me contou durante uma aula de ficção, na Universidade Nova de Lisboa. Ele mostrou-nos uma pintura (lamentavelmente, não me lembro do nome), onde se encontravam (entre outras coisas) duas pessoas que impediam uma terceira de cair. O professor contou que, durante um projecto solidário, um ex-alcoólico escreveu sobre essa pintura, dizendo que aquela pessoa que ia a cair podia estar alcoolizada, mas que nós não tínhamos a capacidade de saber o que se passou antes desse momento. Esta ideia, com a qual comecei a simpatizar muito, não se aplica só à pintura ou à arte, porque nós podemos dizer aquilo que quisermos, mas é muito importante lembrarmo-nos de imaginar o que pode ter acontecido antes. 

Quando já não era possuidor das suas duas orelhas, Van Gogh começou a pintar o quadro The Bedroom (1988). Nele procurou representar a tranquilidade de um quarto que alugou em Arles, França. Aqui deixo a primeira versão da pintura, embora tenham existido, mais tarde, outras duas.

Creio que ainda existe muito aquela ideia de que, se estivermos nos mesmos lugares onde os artistas já estiveram, vamos conseguir criar o que eles criaram. Mais ou menos a respeito desta crença, Afonso Cruz disse numa entrevista ao Público:

“Idealiza-se muito o campo. Tenho brincado muito com isso, já disse que olhar para ovelhas não faz de ninguém um génio. Há quem ache que se vier para o campo de repente tem inspiração, como se o campo tivesse propriedades mágicas de tornar uma pessoa medíocre num génio. Não tem, e há coisas muito feias no campo, como há coisas muito bonitas. Muitas vezes chegam cá e apercebem-se de que existem bichos.”

Há uns tempos, o The Art Institute of Chicago juntou-se ao Airbnb. Recriaram o quarto de Van Gogh e arrendaram-no. Era caro? Não. "Price shouldn’t be a problem: the room is available for just $10 a night. As the host explains: “I need to buy paint.” Em Arles, é até possível "dormir dentro do quadro", mas esse privilégio vai custar-vos 37€ por noite. 

Talvez Van Gogh não gostasse do que vos vou apresentar a seguir (não temos como saber), mas mostro-vos uma bonita (e bem conseguida) recriação desta pintura, em 360º

Agora que já visualizámos a obra, já dormimos nela e já a observámos detalhadamente, podemos começar a pintar como Van Gogh (isto segundo aquela teoria falhada de que seremos iguais aos artistas que admiramos). A verdade é que, felizmente, nunca seremos.

Dário Moreira, Copywriter

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