Estávamos no ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1961 quando dois irmãos naturais de Modena, Itália, na casa dos 30, descobriram a galinha dos ovos de ouro. Antes disso, com apenas 20 aninhos, tinham aberto um quiosque no centro da sua cidade natal. E anos mais tarde, com as poupanças de 10 anos de trabalho no quiosque, tinham fundado uma empresa de distribuição de jornais.

Estamos a falar dos irmãos Giuseppe e Benito, de apelido Panini, fundadores da mítica empresa de cadernetas de cromos. E a galinha dos ovos de ouro trata-se de um velho armazém onde encontraram um stock com milhões de cromos de futebolistas, da então falida Nannina, que adquirem.

A ideia de negócio é simples: decidem fazer saquetas com apenas três cromos, juntamente com um balão para encher, que começam a distribuir em quiosques. O resultado: em menos de um ano vendem três milhões de saquetas.

Este inesperado sucesso leva-os, no ano seguinte, a criar uma marca com o seu apelido e a desenhar os próprios cromos e cadernetas. Desde a época 1961/62, a marca italiana tem editado ininterruptamente cadernetas com os jogadores dos clubes da primeira divisão do campeonato de futebol transalpino e expandido o negócio a outros países e competições. Também há, claro, princesas da Disney e participantes do Masterchef Júnior, mas as imagens de futebolistas são o prato forte deste negócio.

  Imagem da primeira caderneta da Panini (Liga Italiana 1961/62), com Nils Liedholm (AC Milan) na capa. 

Imagem da primeira caderneta da Panini (Liga Italiana 1961/62), com Nils Liedholm (AC Milan) na capa. 

Da cola de farinha e água às cadernetas digitais

Lembro-me do meu pai contar que ainda chegou a colar os seus primeiros cromos, no Alentejo dos anos 50, com cola de farinha e água. Esta imagem contrasta com os novos meios de coleccionar cromos. Desde o Campeonato do Mundo de Futebol de 2010, pelo menos, a Panini lança cadernetas digitais e gratuitas. Basta um simples registo no site da UEFA ou da FIFA, parceiras da Panini, para começar a colecção. Os coleccionadores recebem 3 saquetas de 5 cromos por dia. E, como numa caderneta normal, também podem sair cromos repetidos, os quais podem ser trocados com utilizadores de todo o mundo. É, na verdade, muito fácil completar uma caderneta - missão difícil para uma criança da década de 50.

Nada substitui, é certo, o pequeno e perfeito prazer que constitui rasgar uma pequena saqueta, gesto que nos leva à descoberta dos maiores cepos do campeonato nacional. Porém, a era digital também trouxe novas possibilidades: para além dessas cadernetas, o site da Panini permite criar cromos e cadernetas personalizadas (lá dizem que é um bom presente de casamento ou aniversário). Basta fazer upload das fotos, editar molduras e nomes, e têm as vossas carinhas larocas estampadas em cromos de verdade.

Cromos que não lembram ao diabo

Por fim, não é demais lembrar que a internet cumpre hoje o papel que nos idos anos 80 e 90 era desempenhado por senhores que, de pochete à cintura, vendiam cromos (e plastificavam todo o tipo de cartões) à entrada das estações de metro. Só ela nos resgata imagens de guarda-redes dos anos 90, do "antes e depois" de Ronaldo ou de esquecidos cavalheiros holandeses:

E para terminar em beleza, nada como recordar quando o génio de Mario Balotelli completou uma página da squadra azzurra com os seus próprios cromos.

Mais imagens de infindável beleza aquiaqui e aqui.

Tiago Guerreiro, Copywriter

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