No último fim de semana, sentei-me com a minha mãe no sofá e rebobinámos a box para ver o primeiro episódio de “2077 — 10 segundos para o futuro”. Não dei por desperdiçado o nosso tempo. Nesta série documental, abrem-se várias janelas sobre o futuro da humanidade nas próximas décadas. Onde estaremos daqui a 60 anos? Eu, se tudo correr bem, terei 94 e estarei sossegadinha em casa, no meu planeta, a ver documentários sobre o ano 2177.

Trata-se de um investimento avultado da RTP e de um produto de qualidade rara no contexto da nossa televisão generalista, merecedora de aplauso. Porque traz para o prime-time a discussão de temas prementes (ou mesmo urgentes) mas cujo impacto nos parece sempre demasiado abstrato e distante. Conta com a participação de eminentes cientistas, médicos, filósofos: nomes como Michio Kaku, George Friedman, Gilles Lipovetsky ou os portugueses Elvira Fortunato e António Damásio.

Ao assistir ao primeiro episódio, não foi difícil ceder a uma espécie de deslumbramento face à capacidade de invenção do ser humano e à aceleração alucinante das últimas décadas. Só para dar um exemplo: havia mais tecnologia no iPhone de 2007 do que no foguetão que foi à lua em 1969. A vertigem prevista para um futuro próximo é ainda maior. Parece haver um consenso acerca da alta probabilidade de avanços que (confesso) me parecem total ficção científica. Computadores e telemóveis vão desmaterializar-se. A informação estará disponível para consulta instantânea nas paredes. Corpo humano e tecnologia tenderão a fundir-se.

Claro que, no meio da enumeração de tantas possibilidades, pouco espaço houve para aflorar as consequências ainda imprevisíveis da nova revolução. Num mundo em que as desigualdades são tão flagrantes, quem beneficiará? Que guerras se travarão pela supremacia na inteligência artificial? E para citar aquela que pessoalmente mais me aflige: como será viver com a total perda de privacidade que implica a transformação de tudo o que move em informação armazenada? Mas para nos afligirmos na medida certa, temos o excelente Black Mirror.

A maior esperança deixada com o primeiro episódio de “2077” está nos avanços da medicina. Mais uma vez, o otimismo e a certeza sobre o progresso são esmagadores. Teremos tecnologia nas sanitas que analisam as células malignas no nosso ADN. O cancro será tão frequente e controlável quanto a gripe nos dias de hoje. Os efeitos do Alzheimer serão anulados por uma alimentação instantânea de todas as memórias gravadas na nossa cabeça, como sangue bombeado para as artérias. Viveremos muito mais tempo, resta saber com que qualidade.

No fim do programa, sideradas, a minha mãe e eu dissemos quase em uníssono:

— Já cá não estarei para ver isto!

— Tenho pena de talvez não chegar a ver isto!

O segundo episódio, porém, foi um verdadeiro balde de água fria sobre o prévio entusiasmo. Ou um balde cheio de gases de efeito de estufa. Quer então dizer que, afinal, não teremos planeta para usufruir dos avanços da tecnologia?

Com as alterações climáticas e o abuso dos recursos do planeta, as mentes visionárias discutem agora formas de tornar Marte, planeta gelado, habitável para os seres humanos — introduzindo gases com efeito de estufa na atmosfera! A ironia trágica de uma espécie que se dedica a adulterar outro planeta porque já destruiu o original. Desta vez, não houve como não sentir repulsa pelo ser humano. Que, para citar Michio Kaku, se comporta no planeta Terra como uma criança de 8 anos a quem entregam um martelo numa sala cheia de objetos frágeis.

Espero por melhores notícias nos próximos capítulos.

“2077” passa às Terças-Feiras no primeiro canal da estação público.

Podem acompanhar também na a plataforma de streaming RTP Play.

Joana Ribeiro, Senior Copywriter

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